É impossível começar a falar desta obra musical sem mencionar os Oblique Rain, quinteto do Porto que nos brindou com dois importantes marcos na vertente progressiva da música pesada nacional da década passada. “Isohyet” e “October Dawn” mostraram-nos um lado sentimental algo melancólico, brandado com mistério e dinâmica rítmica fora do comum dentro do panorama nacional. No entanto, a banda findou actividade em 2013.
A chuva oblíqua deixou as cinzas de onde, todos os elementos da matéria-prima, à excepção do vocalista e guitarrista Flávio Silva, materializaram o nascimento de uma nova entidade, os Sullen. A música do projecto ancestral atendia a um sentimentalismo mais pessoal, havia uma maior facilidade na aproximação à mensagem e à sonoridade que estes queriam transmitir. Os temas funcionavam também como entidades separadas dentro da mesma temática, mas “Post-Human” funciona como um todo, em que é impossível separar uma das
partes e dar-lhe sentido. Aliás a sua envolvência evolve nessa mesma
condição e não é algo que se entenda à primeira audição. “Devata” com um
riff “djenty”, é uma introdução instrumental muito interessante e que
avisa logo que estamos perante algo mais matemático e não tão emocional
como o progressivo melancólico que antes os seus intervenientes
exploravam. Mas contém ainda uma marca muito própria: a voz. Curioso
como o guitarrista César Teixeira assume o papel deixado por Flávio
Silva e encarna uma tonalidade muito idêntica ao seu antigo companheiro,
mas com a adição de “harsh vocals”, algo que não acontecera
anteriormente, juntando a raiva de querer ser algo mais, de sair da
monotonia e quebrar o casulo. As três guitarras acrescentam ainda
pormenores que se vão descobrindo a cada passo, porém é nas partes
atmosféricas que elas se sobressaem, compondo diversas camadas que se
interligam, revelando no entanto cada uma a sua própria personalidade.
Os teclados também são um toque novo, com a entrada de João Pereira, que
valoriza os momentos mais introspectivos da viagem.
A produção, embora muito competente, podia ser mais criativa e realçar mais os pormenores que vão permanecendo escondidos aqui e ali. Um outro aspecto que também acaba por pecar, dependendo da perspectiva, é a própria coesão do disco. Este, acaba por se embrulhar um pouco durante a viagem, sendo que a segunda metade do disco começa num divagar algo difuso, mas ainda que consistente, começam a faltar os momentos memoráveis da primeira, até rebentar na fantástica “Engulf” como a materialização da metamorfose. É de louvar ainda a homenagem que dão à música portuguesa de outrem, com uma cover extremamente original, sem perder a alma, do tema “Redondo Vocábulo”, do nosso grande Zéca Afonso.
Pode-se dizer que os Sullen são a perspectiva pós-humana do seu passado, os temas tornaram-se mais frios a uma primeira audição, derivada de uma complexidade de quem procura desprender-se de algo sentimental para chegar a outro tipo de paz interior. O que ela irá significar na sua sonoridade, terá o seu fado nos próximos passos deste sexteto. Pode ser preciso tempo para entrar no mundo recente destes nortenhos, mas o esforço será extremamente recompensado.
Nota: 8.5/10
Review por Bruno Farinha